O tema das barragens de rejeitos da mineração é uma realidade que não sai da cabeça de muitos brasileiros, principalmente depois dos desastres que destruíram milhares de vidas em Minas Gerais. Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), em 2024, ainda havia 934 barragens de mineração cadastradas, distribuídas entre 21 Estados. Nesse cenário, diversos pesquisadores do CEFET-MG têm se debruçado em estudar e desenvolver soluções para reduzir os riscos de rompimento ou apresentar opções para esses depósitos, alinhadas à sustentabilidade e à transparência no diálogo com as comunidades.
O mestre em Engenharia de Minas (campus Araxá) Thiago Moura de Queiroz e Oliveira, por exemplo, estudou modelos mais eficazes como o empilhamento de rejeitos, por meio de “tortas de rejeitos”, durante o desenvolvimento da dissertação defendida em 2024. O pesquisador explica que as primeiras operações com rejeitos desaguados e empilhados no Brasil começaram em 2016 e, desde então, diversas mineradoras vêm trabalhando para migrar total ou parcialmente suas operações. Porém, a complexidade de operação em qualquer um dos métodos, exige pesquisas e testes constantes dos profissionais da área.
“Os dois tipos de armazenamentos (empilhamento e barragens), desde que dimensionados, construídos e operados corretamente, são altamente seguros. Diria até que não existe até hoje nenhuma estrutura mais segura que uma barragem de terra bem dimensionada e construída. Até mesmo as pilhas podem necessitar de mais cuidados em períodos chuvosos. Isso foi demonstrado em meu trabalho”.
Na dissertação, Thiago estudou o rejeito de uma mineradora de fosfato em condições desaguadas para avaliar os comportamentos de tensão e deformação em uma pilha de rejeito de lama. Ainda são muitos os desafios para o uso desse sistema, entre eles a escala de produção e o fato de o Brasil ser um país úmido e chuvoso comparado com outros países, que utilizam a técnica de empilhamento. “O grande volume de chuvas representa um desafio para se operar estas estruturas haja vista que a umidade é um fator-chave para garantia de sucesso desse tipo de empreendimento”, explica.
Segurança
A motivação para se pensar uma nova tecnologia de disposição de rejeitos surgiu “pela necessidade de se estudar alternativas à operação convencional, que utiliza apenas barragens. Ademais, na área de fosfato havia poucos ou nenhum trabalho sobre o tema. O pioneirismo e o desafio de buscar alternativas em rejeitos de fosfato também foram fatores cruciais”, avalia.
É o que confirma o orientador da dissertação, professor do Departamento de Engenharia Civil e Meio Ambiente do campus Curvelo, Thiago Bomjardim Porto.
“O mestrado do Thiago é uma consequência dos últimos acidentes em barragem com rejeitos de mineração, principalmente em Minas Gerais, que, de certa maneira, influenciaram nas deliberações normativas do Estado em proibir a barragem do tipo a montante, fazendo com que as mineradoras buscassem alternativas para a disposição de rejeitos. Thiago propôs pilhas de rejeito que não saturassem o material, com resistência e estabilidade nas magnitudes propostas para aqueles parâmetros geotécnicos. É uma pesquisa relevante com potencial de ineditismo e que agrega bastante para toda a nossa sociedade”, garante.
Os testes feitos durante a pesquisa apontaram deslocamentos verticais que não ultrapassaram 10% da altura da pilha. O estudo contou também com informações sobre a melhor rota tecnológica para suportar as lamas desaguadas e empilhadas, além de critérios e boas práticas de engenharia para o desenvolvimento de projetos de pilhas considerando a escassez de legislações ou normas específicas sobre o tema. Os dados e informações apuradas na dissertação “Empilhamento de rejeitos de lamas fosfáticas desaguadas: caracterização, modelagem numérica e critérios de projetos” contribuem para trazer mais fôlego a práticas seguras e socialmente responsáveis.
Pilha de rejeitos pesquisada
87 metros de altura
Equivale a altura de mais de duas estátuas do “Cristo Redentor” (RJ)
Volume aproximado de 9,5 milhões de m³
Equivale a quase meia lagoa da Pampulha (BH)
Como se faz “tortas de rejeitos”
“Rejeitos” são resíduos que sobram do beneficiamento de minérios. Geralmente são compostos de minérios pobres, areia e água.
No processo de desaguamento, os rejeitos vão para uma planta de filtragem para a extração da água.
A extração é feita com pressão: o rejeito é prensado entre duas placas e a água é retirada por bombas.
O que sobra são tortas de rejeitos, que têm características de um solo arenoso, porém sólido e compacto.
Após a finalização do processo, as tortas são empilhadas em cavas.
Leia esta e outras reportagens na revista de divulgação científica do CEFET-MG, a Túnel.
Diretoria de Comunicação do Conif
Texto: Coordenação de Jornalismo e Conteúdo – CJC/SECOM/CEFET-MG
Imagem: CEFET-MG