Professor do campus Santo Amaro é autor da tese vencedora do Prêmio CAPES 2026 na área de História

Natural de Salvador, Bruno Moreira cresceu em Itabuna. No ensino médio, sua afinidade com as disciplinas de humanidades o levou a realizar o vestibular para a licenciatura em história na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), ainda que tenha cogitado a possibilidade de trabalhar com a área de informática. Professor de história do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFBA), campus Santo Amaro, desde 2010, realizou seu doutorado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) com uma tese que analisou o impacto da ditadura brasileira na trajetória do intelectual Milton Santos (falecido em 2001).


O trabalho acaba de ganhar o Prêmio Capes de Teses como a melhor tese em História defendida no ano de 2025 no Brasil. A tese se encontra disponível no Repositório Institucional da UFBA, em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/43313. Conversamos com o professor Bruno Moreira no campus Santo Amaro, na semana em que foi publicado o resultado final.

 

Portal IFBA: Como a própria Capes define, o Prêmio CAPES de Teses reconhece os melhores trabalhos de conclusão de doutorado defendidos em programas de pós-graduação brasileiros de acordo com os seguintes critérios: originalidade do trabalho, relevância para o desenvolvimento científico, tecnológico, cultural, social e de inovação e o valor agregado pelo sistema educacional ao candidato. A sua tese, intitulada “O exílio da memória: Milton Santos e a ditadura civil-militar” foi a vencedora nacional da premiação na área de História, certo? O senhor poderia nos contar um pouco sobre as motivações para a escolha do tema da tese e os desafios para produzi-la? 

 

Bruno: O tema da tese começou a acontecer enquanto eu ainda fazia o mestrado, quando desenvolvi uma pesquisa sobre a imprensa da Bahia no período da chamada Guerra Fria. Naquela altura, me concentrei num jornal, o A Tarde, para estudar o fenômeno do anticomunismo e a cobertura dedicada a temas como a Revolução Cubana e outros assuntos que eram disputados naquele cenário. Nesse contexto, eu descobri o Milton Santos jornalista. Já conhecia algo do Milton Santos geógrafo, mas eu não sabia, até então, da sua trajetória no jornalismo na Bahia. Então, comecei a me interessar por essa faceta de sua história. Depois, me deparei com uma interpretação de que o conjunto de perseguições que Milton Santos sofreu depois que a ditadura se instalou em 1964 poderia ter relação com essas posições que ele anunciava e escrevia na imprensa. Então, isso começou a me intrigar, e fui tentar entender essa passagem da sua vida, e como suas ideias foram apropriadas como “ideias perigosas”, ensejando perseguições por um governo ditatorial que se instalou, contra esse intelectual negro baiano.

 

Em 2014, o acervo pessoal de Milton Santos, o material que ele colecionou durante toda a vida (correspondências, agendas, cartas…), foi doado pela sua família para o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). Neste mesmo ano, fiz uma primeira visita ao acervo, e comecei a descobrir esse homem, esse intelectual público, a partir de seus documentos. Com esse repertório inicial, fui constituindo o projeto para o doutorado e, alguns anos depois, esse projeto foi submetido à Universidade Federal da Bahia (UFBA). Aprovado na seleção, pude desenvolver a pesquisa e a tese.

 

Tive, para isso, alguns apoios fundamentais: primeiro o apoio do Instituto Federal da Bahia (IFBA), na medida em que pude concorrer a um edital de afastamento, e conseguir, com isso, o tempo necessário para desenvolver a pesquisa, com o afastamento para estudos a partir de 2021; segundo, o apoio da própria UFBA, onde eu desenvolvi e defendi o doutorado, já que durante o período da pandemia houve grandes dificuldades – os arquivos foram fechados, os fluxos foram interrompidos – e a Universidade compreendeu essas demandas relacionadas aos prazos para a entrega; e também o apoio do IEB-USP, que é a instituição que guarda o acervo pessoal de Santos, e que me deu todo o atendimento necessário. Uma outra menção importante é que no fluxo desse trabalho eu pude também coletar alguns documentos fora do país, acervos do período em que Milton Santos ficou exilado na França, através de um edital da CAPES para realização de um doutorado sanduíche (Edital CAPES/PRINT/UFBA). Então, esse edital me permitiu passar seis meses naquele país reunindo material e realizando estudos que também enriqueceram a tese.

 

Portal IFBA: Ainda sobre a sua tese vencedora do Prêmio Capes, quais as características do seu trabalho que, na sua avaliação, contribuíram especialmente para que se fosse o vencedor da premiação?

 

 

Bruno: Penso que essa diversidade de fontes conferiu uma força à tese. Ao visitar vários acervos (inclusive arquivos da repressão), também fui desenvolvendo um traço até obsessivo de coletar e catalogar tudo que eu ia encontrando. Vejamos que isso enseja riscos, porque às vezes o pesquisador pode se perder um pouco nesse volume de dados. Mas, com o apoio da minha orientadora, fui conseguindo montar uma forma minha de lidar com essas fontes, produzindo uma metodologia própria para a tese, muito inspirada numa corrente historiográfica chamada microanálise/micro-história, e que atentou aos detalhes desses documentos e vestígios materiais, considerando suas particularidades e buscando articulá-los.


Além da questão da diversidade de acervos, a tese também se permitiu reconhecer e acolher memórias diversas de pessoas que conviveram com Milton Santos. Realizei algumas entrevistas importantes e, a partir da metodologia da história oral, fui desenvolvendo análises que também a enriqueceram. Além disso, as próprias memórias de Milton Santos foram consideradas. Não eram muitas as falas tornadas públicas sobre esse contexto.


Milton Santos, em geral, não colocava publicamente detalhes desse processo de perseguições, mas, em algumas poucas entrevistas, permitiu-se falar mais detidamente sobre o tema. Então, a análise dessas memórias também enriqueceu o estudo. 

Eu penso que o texto também tem uma expressividade porque eu me permiti escrever, em determinados momentos, em primeira pessoa, explicando ao leitor como cheguei às fontes, como localizei o tema. Isso, aliado a um processo analítico que tem, ao meu ver, uma robustez teórica, tornou também acessível uma leitura sobre o próprio processo de construção da pesquisa.


Portal IFBA: Como a sua tese e o artigo gerado a partir dela - Milton Santos, prisioneiro político: as mensagens de Walfrido Moraes (1964) – podem contribuir para os estudantes que são seus alunos de história no campus Santo Amaro e outros professores e pesquisadores do IFBA e de outras instituições, no entendimento da obra e biografia de Milton Santos?


Bruno: Durante essa pesquisa, eu acabei desenvolvendo alguns conceitos para analisar esse caso em particular, e como a ditadura alcançou esse indivíduo. Chaves analíticas para compreender a ditadura como fenômeno político. Na tese, formulei os conceitos de poder conformador e de dinâmicas de conformação para entender como as instituições da Bahia – imprensa, universidade e outras instituições – produziram ajustes quanto ao fenômeno repressivo que a ditadura foi estruturando, e que também ajudam a entender o caso da repressão contra Santos. De como ele foi silenciado, preso, obrigado ao exílio, e exonerado dos cargos que possuía.


Então, tenho mobilizado nas minhas aulas esses conceitos para entender a eclosão de regimes de força. Acho que a partir do caso de Milton Santos, a gente também consegue entender como esses modelos autoritários vão se constituindo a partir do silenciamento de ideias e de indivíduos que produzam algum tipo de recusa ao autoritarismo ou mesmo que tenham interesses progressistas em determinados contextos, e também como o posicionamento das instituições podem repercutir nestas trajetórias. Então, nesse fluxo, compreender o caso de Milton Santos pode ser uma oportunidade para se entender algumas particularidades da engrenagem daquele regime ditatorial, inclusive na dimensão racial.


Portal IFBA: Em maio deste ano, foi celebrado o Centenário de Milton Santos, baiano de Brotas de Macaúbas considerado um dos mais renomados intelectuais do Brasil e que se tornou uma referência na área em todo o mundo. Como o senhor traduziria a importância de Milton Santos para a maior compreensão e os avanços de estudos da geografia no Brasil?


Bruno: Eu acho que Mílton Santos, como um geógrafo crítico, engajado, um dos maiores intelectuais do Brasil, foi um grande estudioso do território e do espaço. Então, acho que a grande contribuição de Milton Santos, não só para a geografia, mas para todo o campo científico, em humanidades e mesmo para a ciência política, tem a ver com esse seu interesse em compreender o território como elemento-chave do processo de transformação. Os usos, as abordagens sobre o território implicam na vida social. Mudar a sociedade, alterá-la para modelos mais emancipatórios, passa pela modificação do uso do território, e pelas escolhas coletivas que são feitas sobre ele. Então, acho que a grande contribuição de Milton Santos é chamar a atenção, ainda hoje - dentro de uma contemporaneidade de fragmentação pela virtualidade - para o território, para a dimensão física da construção humana, e da emancipação que pode vir a partir da transformação dos seus usos.


Portal IFBA: Em artigo publicado no Portal do IFBA em maio deste ano, a propósito do centenário de Milton Santos, o professor Sebastião Cerqueira Neto, do campus Porto Seguro, pesquisador da geografia e líder do Grupo de Pesquisa Milton Santos (IFBA/CNPq) afirma que “Milton Santos teve a coragem de produzir severas críticas sobre a ciência, a universidade, o papel da intelectualidade brasileira”. Como conhecedor da trajetória e do posicionamento de Milton Santos durante a “ditadura civil-militar” citada no título de sua tese, o senhor poderia nos contar um pouco mais sobre outras contribuições de Milton Santos à sociedade, na perspectiva dos posicionamentos do intelectual baiano sobre questões políticas e socioeconômicas?


Bruno: Milton Santos, desde a época em que atuou como jornalista na Bahia nos anos 1950-1960, sempre enfrentou questões disputadas no terreno da política e da construção de uma coletividade. Ele nunca fugiu dos assuntos espinhosos que dividiam a sociedade. Então, como jornalista, como intelectual público, escreveu sobre temas internacionais, sobre a política, denunciou abusos. E foi alguém muito disposto ao debate público. Creio que essa é a primeira lição que Milton Santos nos dá. Ele sempre se colocou disponível para o debate de interesse coletivo.


Muitas vezes, até mais do que um interesse pela sua própria trajetória, de colocar suas questões na arena pública, ele privilegiou temas que tinham relevância coletiva, evitando, muitas vezes, a primeira pessoa do singular, e se engajando na ideia de uma primeira pessoa do plural. E isso foi uma constante na sua vida, inclusive após o retorno do exílio. A partir do recebimento do Prêmio Vautrin Lud, em 1994, o maior prêmio da geografia, a imprensa o convida a fazer um debate sobre temas nacionais, e ele utiliza esse espaço para tratar de questões importantes, a questão do negro na sociedade brasileira, a questão do uso do espaço, da globalização, do território no novo milênio, da informática. Então ele sempre esteve disposto a disputar e participar dos debates públicos de grande amplitude.


Acredito que suas ideias continuam muito potentes para pensar a sociedade contemporânea, mesmo que ele não tenha acompanhado determinados fenômenos com os quais a gente hoje se depara. Seus conceitos, suas chaves analíticas, continuam sendo repertórios úteis, aplicáveis na compreensão da fragmentação que a gente tenta evitar nos nossos territórios hoje. Então, penso que Milton Santos continua vivo e politicamente engajado através de sua obra.


Portal IFBA: Você tem planos de tratar de temas relacionados a Milton Santos num pós-doutorado? Se sim, qual o recorte ou aspecto que será abordado?


Bruno: Penso que a docência e a pesquisa são indissociáveis. Então, projeto sim desenvolver abordagens derivadas dessa pesquisa. E me interessa especialmente o Milton Santos do Planejamento. O Milton Santos que atuou tanto no jornalismo da Bahia dos anos 1960 quanto em cargos administrativos que eram centrais para se pensar o planejamento do Estado. Milton Santos foi o presidente de um órgão chamado Comissão de Planejamento Econômico da Bahia (CPE) e nesse trabalho ele desenvolveu ideias muito arrojadas para uma transformação das forças produtivas, o incremento educacional e cultural, novas relações com os trabalhadores. Então, numa futura pesquisa, eu acredito que esse ponto particular de sua trajetória, a sua atuação na CPE, que ocorria às vésperas do golpe de Estado que interrompeu esses e muitos outros projetos, seria uma boa questão de partida.


Clique e confira a entrevista no canal do Youtube do IFBA campus Santo Amaro:

Realização: Audiovisual/Coord. de Comunicação (IFBA Santo Amaro)

Entrevistado: Bruno Moreira (História - IFBA Santo Amaro)

Produção/Edição: Emiliano Gonçalves (Audiovisual)

Roteiro: Bárbara Souza (Jornalista - Reitoria/IFBA) e Ticiano Lima (Coord. de Comunicação/IFBA)


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