Do lixo visível aos microplásticos: IFCE fortalece a proteção dos oceanos no Ceará

No Dia Mundial dos Oceanos, celebrado em 8 de junho, iniciativas de pesquisa e extensão do Instituto Federal do Ceará (IFCE) reforçam um alerta: a poluição marinha avança em diferentes escalas, indo desde o lixo visível acumulado na areia até partículas microscópicas de plástico que já circulam pela cadeia alimentar. 


Em Paracuru, no litoral oeste cearense, o projeto Amigos do Mar desenvolve ações para proteger ecossistemas costeiros e promover o uso sustentável dos recursos do oceano. A iniciativa nasceu em 2018 durante uma aula de campo realizada na Praia da Munguba. A atividade, inicialmente voltada à análise de resíduos sólidos, acabou se transformando em uma experiência decisiva para estudantes e professores do campus do IFCE no município. “Até mesmo os alunos que moravam na região ficaram impressionados com a quantidade de lixo acumulada”, relata a professora Luciana de Castro, coordenadora da iniciativa. 


Desde então, o projeto consolidou uma rede de atuação que combina limpeza de praias, pesquisa científica, educação ambiental e articulação comunitária. Ao longo de oito anos, mais de 2,3 toneladas de resíduos sólidos e 13,5 mil bitucas de cigarro foram retiradas das praias da região. As chamadas “bituqueiras”, coletores instalados na orla, tornaram-se uma das estratégias mais visíveis da iniciativa, funcionando não apenas como estrutura de descarte, mas também como ferramenta pedagógica de conscientização ambiental. O lixo transformou-se em evidência.


“O impacto visual das nossas bituqueiras no Ronco do Mar e na Pedra Rachada tem educado fumantes e comerciantes. Sabemos que mudar hábitos é um processo contínuo e desafiador, mas hoje já temos restaurantes parceiros que não apenas cedem o espaço, mas se tornaram guardiões da área, monitorando o descarte correto”, comenta a professora Luciana de Castro.


Lixo sem fronteiras



O projeto Amigos do Mar também monitora a chamada "poluição transnacional”, composta por resíduos vindos de outros países ou transportados por correntes marinhas que chegam às praias cearenses. “O primeiro sinal de alerta internacional ocorreu em 2019, com o achado de uma embalagem de amaciante de roupa coreana. Nos últimos dois anos, contudo, a presença desses resíduos estrangeiros nas praias de Paracuru intensificou-se drasticamente, motivando o grupo a formalizar a investigação científica”, afirma Luciana. 


O estudo é conduzido por Ana Letícia Sousa, estudante do curso de Tecnologia em Gestão Ambiental contemplada pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC). A pesquisa investiga a ocorrência do fenômeno do "lixo sem fronteiras", gerando subsídios científicos para mapear as prováveis origens e rotas de dispersão de resíduos plásticos que, transportados por correntes oceânicas e ventos globais, cruzam milhares de quilômetros até encalhar no litoral paracuruense, onde podem causar severos impactos nos ecossistemas costeiros locais.


"O objetivo é chamar a atenção para uma forma de poluição que ultrapassa fronteiras, evidenciando seu caráter global, além de investigar os possíveis caminhos que fazem com que esses resíduos cheguem até a costa de Paracuru”, destaca a estudante. 


Os resultados preliminares são alarmantes. Apesar de serem áreas afastadas e com baixa interferência humana, as praias analisadas apresentam um imenso volume de lixo marinho de origem internacional. Mais especificamente, foram encontrados nos pontos amostrais resíduos plásticos, desde tampas e garrafas de água até embalagens alimentícias, provenientes da China e da República Democrática do Congo.


"Estudos científicos realizados ao longo da costa do Brasil demonstram que praias desertas e voltadas para o oceano aberto são frequentemente as mais afetadas pelo lixo transnacional. Devido à ausência de barreiras físicas e à dinâmica das correntes costeiras, essas áreas funcionam como verdadeiras barreiras de retenção natural. Em Paracuru, a Praia da Piriquara consolidou-se como um ponto crítico de acumulação, formando densas "ilhas" de lixo plástico na areia", explica a professora Luciana Castro.


A coordenação da pesquisa ressalta que, por se tratar de um estudo inicial no município, o foco não é determinar com exatidão a fonte emissora ou o ponto exato do descarte (ou seja, se o resíduo partiu de um navio específico ou da costa de outro continente). O objetivo é levantar dados para propor prováveis rotas de transporte e apontar as possibilidades de caminhos que esse lixo percorre, além de chamar a atenção para a gravidade da poluição plástica global, mostrando que o que acontece na praia de Paracuru é o reflexo de um desafio que afeta todo o planeta.

Lixo invisível

Mas o lixo visível representa apenas parte do problema. O professor Ivandilson Menezes, do campus de Acopiara do IFCE, é um dos 40 cientistas de 17 estados brasileiros e instituições internacionais que participaram do projeto MICROMar, um estudo que mapeou a presença de microplásticos ao longo de aproximadamente 7,5 mil quilômetros da costa brasileira, cobrindo mais de 90% do litoral. 

Entre abril de 2022 e abril de 2023, foram analisadas 4.134 amostras de areia coletadas em 1.024 praias. Foram identificadas 24.549 partículas de microplásticos, encontradas em cerca de 69% das praias analisadas. Os fragmentos mais comuns eram provenientes da degradação de embalagens, sacolas, copos descartáveis e isopor. O trabalho foi publicado na revista científica Environmental Research.


“Este levantamento não é apenas um diagnóstico científico; é um alerta ambiental e social sobre o impacto invisível do plástico no nosso litoral”, destaca o professor Ivandilson Menezes. 

Além da quantidade de resíduos, os pesquisadores investigaram o potencial tóxico dos diferentes tipos de polímeros encontrados. O estudo aponta que materiais como PVC e PET podem liberar substâncias químicas capazes de afetar organismos marinhos e, indiretamente, a saúde humana. 


O MICROMar traz uma mensagem clara: o plástico que usamos retorna para nós, transformado em fragmentos microscópicos que circulam no ambiente, entram em organismos e desafiam a capacidade de regeneração dos ecossistemas. Os pesquisadores envolvidos esperam que os resultados sirvam de base para ações governamentais, educativas e comunitárias. “Precisamos transformar ciência em consciência. Só assim o oceano poderá respirar novamente”, conclui o professor Ivandilson Menezes.

Diretoria de Comunicação do Conif

Texto: Andressa Sanches/IFCE
Foto: Arquivo IFCE

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